Não planejei ser educador, mas…
O início sempre é a parte mais complicada.
E digo isso sobre praticamente qualquer aspecto da vida.
Começar uma história significa olhar para trás e tentar entender como chegamos até o lugar em que estamos. E, quando olho para a minha trajetória, confesso que às vezes até eu me pergunto como fui parar nesse mundo tão inesperado chamado educação.
Para contar essa história, precisamos voltar um pouquinho no tempo.
Vamos voltar para 2023.
Eu tinha acabado de terminar o Ensino Médio. E, apesar da felicidade de finalmente concluir uma etapa tão importante, havia também uma certa tristeza. O Ensino Médio tinha passado rápido demais — afinal, a pandemia havia levado boa parte do meu primeiro e do meu segundo ano.
E, de repente, eu estava diante daquela pergunta que provavelmente assusta muitos jovens:
“E agora, o que eu vou fazer da minha vida?”
Ser professor definitivamente não era minha primeira opção.
Na verdade, era quase um plano de emergência.
Eu tinha uma visão bastante equivocada de que ser professor era fácil.
Grande engano.
Minha primeira opção era trabalhar como perito. Cheguei, inclusive, a correr atrás desse sonho. Pesquisei faculdades, possibilidades de formação e, naquele momento, decidi que faria uma licenciatura em Ciências Naturais.
Não era necessariamente o caminho mais tradicional para chegar onde eu queria, mas alguns conselhos me fizeram pensar na possibilidade de escolher uma licenciatura justamente pela amplitude do mercado de trabalho.
Só que não deu certo.
E eu percebi uma coisa: eu nunca tinha realmente pensado em um plano B.
Então, para não ficar parado, decidi fazer uma faculdade. E foi assim, quase por acaso, que caí em História.
Não vou dizer que tive aquela identificação cinematográfica que alguns colegas tinham, daqueles que desde pequenos já sabiam que seriam historiadores.
Não.
Eu simplesmente comecei.
E gostei.
Pouco tempo depois de entrar na faculdade, surgiu uma oportunidade de trabalho justamente na área da educação.
E foi aí que eu comecei a provar do meu próprio veneno.
O primeiro teste
Comecei a substituir aulas e a trabalhar como facilitador da inclusão na escola onde havia estudado praticamente a minha vida inteira.
E isso, por si só, já era uma experiência muito especial.
De repente, eu estava trabalhando ao lado de professores que um dia haviam sido meus professores.
Era uma honra. E também uma responsabilidade enorme.
Mas foi nessa primeira escola que eu realmente fui colocado à prova.
Em determinado momento, precisei assumir uma turma de 2º ano.
Agora parem para pensar comigo:
um estudante de História, no segundo semestre da faculdade, sendo colocado dentro de uma sala de alfabetização.
Foi praticamente como ser jogado em uma cova de leões.
Só que eram leões filhotes.
E muito barulhentos.
No começo, eu simplesmente fazia o que conseguia. Pegava atividades que outras professoras utilizavam, seguia aquilo que a coordenação orientava e tentava sobreviver ao dia.
Só que havia um problema:
eles não me obedeciam.
Não me escutavam.
E, pior, eu estava me desgastando.
Eu gritava.
Eu me frustrava.
Eu chegava a chorar quando sentia que não conseguia lidar com tudo aquilo.
Até que, em determinado momento, percebi uma coisa que doeu bastante admitir:
eu estava me tornando o professor que ninguém queria ter.
O professor chato.
O professor que só brigava.
O professor que gritava.
O professor que se frustrava e, no fim das contas, não conseguia transformar aquela frustração em nada.
E foi aí que eu decidi mudar.
Não apenas porque eu não estava gostando de quem estava me tornando.
Mas porque aquelas crianças não mereciam aquilo.
Passei a tentar outra abordagem.
Mais acolhedora.
Mais afetuosa.
Mais brincalhona.
Mas sem deixar de ser firme quando fosse necessário.
Foi aí que descobri o meu famoso estilo “morde e assopra”.
E, junto com essa mudança de postura, veio outra necessidade: eu precisava aprender.
Comecei a estudar mais.
A buscar conhecimento.
A tentar entender como aquelas crianças aprendiam, como eu poderia ensiná-las melhor e como poderia fazer com que aquela sala funcionasse sem precisar transformar cada momento em uma disputa.
E descobri algo que a teoria, sozinha, nunca conseguiria me ensinar:
a sala de aula também ensina o professor.
Naquela turma tive minha primeira reunião de pais.
Meu primeiro conselho de classe.
Meus primeiros atendimentos com famílias.
Meu primeiro contato com tantas responsabilidades que, até então, eu só conhecia de ouvir falar.
Foi meu primeiro tudo.
E, de alguma maneira, consegui.
Chegamos ao final daquele ano com uma despedida extremamente chorosa.
Mas também com uma sensação enorme de orgulho.
Orgulho dos meus alunos.
E, pela primeira vez, orgulho de mim como educador.
E eu achei que já tinha aprendido…
Então chegou o ano seguinte.
Novos desafios.
Novos alunos.
Dessa vez, um 1º ano com duas inclusões.
Foi desafiador. Foi desgastante. E me ensinou muito.
Até que, no meio do ano, fui transferido para outra escola. Permaneci ali por aproximadamente um mês e, depois, saí do município.
Por um período, fiquei longe da área.
Mas aparentemente a educação ainda não tinha terminado comigo.
2025: novos caminhos
Em 2025, voltei para a rede municipal.
Dessa vez, em uma escola que posso dizer que era um pouco mais desafiadora.
No começo, tive dificuldades.
Muitas.
Mas também foi um dos períodos em que mais aprendi.
Principalmente sobre inclusão.
Tive o privilégio de conhecer diferentes etapas da educação, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental II.
E foi ali que descobri uma característica minha que até então eu não conhecia tão bem:
eu sou muito adaptável.
Consegui transitar entre habilidades sociais, alfabetização e conteúdos mais estruturados.
Cada idade exigia uma postura diferente.
Cada aluno precisava de alguma coisa diferente.
E eu fui aprendendo a encontrar o meu lugar em cada uma dessas realidades.
Tive desafios que me deixaram completamente perplexo.
Situações que eu não sabia como resolver.
Dias difíceis.
Mas também foi nessa escola que tive acesso a algumas das experiências mais importantes da minha trajetória.
Conheci famílias.
Conheci histórias.
Conheci alunos incríveis.
Conheci colegas que acabaram se tornando família.
E, principalmente, encontrei um espaço em que me senti acolhido, livre para trabalhar e valorizado.
Foi ali que comecei a ter uma certeza que antes ainda era acompanhada de muita dúvida:
eu poderia ser um bom professor.
Um professor que acolhe.
Que incentiva.
Que sabe ser firme.
Que consegue ensinar.
E que, principalmente, ama estar em sala de aula.
Foi também nessa experiência que descobri algo que me marcou muito: eu gostava de trabalhar com os alunos maiores do Ensino Fundamental II.
A educação, que um dia havia sido apenas uma alternativa, começava a se transformar em escolha.
E então veio o SESI
Até que, em março de 2026, surgiu uma nova oportunidade.
Uma rede privada.
Uma instituição grande.
O SESI.
E eu não vou mentir:
quando passei, fiquei assustado.
Por algum motivo, achei que talvez eu não fosse bom o suficiente para trabalhar em uma instituição daquele tamanho.
Quando cheguei, esse sentimento não desapareceu imediatamente.
Pelo contrário.
A estrutura era completamente diferente.
As condições de trabalho eram outras.
O período era integral.
E os alunos de inclusão que encontrei apresentavam necessidades e características muito diferentes de tudo que eu já havia vivenciado.
Foi um choque.
Durante bastante tempo, senti que não estava conseguindo acompanhar.
Que não estava conseguindo me adaptar.
Que talvez aquele lugar não fosse para mim.
Mas, com o tempo, com ajuda e, principalmente, com muita disposição para aprender, fui encontrando meu espaço.
E aqui estou.
Sete meses depois, ainda aprendendo, ainda enfrentando desafios, ainda descobrindo coisas sobre a educação e sobre mim mesmo.
E, se Deus permitir, essa história ainda terá muitos capítulos.
Mas quem é esse educador?
Bom, acho que depois de contar tudo isso, também preciso me apresentar academicamente.
Sou licenciado em História pela UNIFACCAMP.
Atualmente, sou licenciando em Pedagogia.
Também sou pós-graduado em Educação Especial e Inclusiva, Atendimento Educacional Especializado (AEE) e Alfabetização e Letramento.
Mas, depois de tudo que contei, percebo que minha formação não está apenas nos certificados.
Ela também está em cada sala de aula em que entrei.
Em cada aluno que me ensinou alguma coisa.
Em cada erro que precisei reconhecer.
Em cada família que me permitiu conhecer uma história.
Em cada professor que me ensinou pelo exemplo.
E em cada dia em que, mesmo cansado, voltei para a escola e tentei novamente.
Talvez seja justamente por isso que eu tenha decidido escrever este diário.
Não quero criar um manual sobre como ser um bom educador.
Até porque eu ainda estou descobrindo.
Quero registrar o caminho.
As experiências bonitas e as difíceis.
As pequenas conquistas que quase ninguém vê.
As dúvidas.
As descobertas.
As histórias que ficam depois que o sinal toca.
Os momentos que fazem a gente rir.
Os que fazem a gente chorar.
E aqueles pequenos instantes que, no meio de um dia completamente caótico, fazem a gente pensar:
“É. Talvez seja exatamente por isso que eu escolhi estar aqui.”
Este é o meu Diário de Bordo.
De um educador que ainda está aprendendo.
Que ainda erra.
Que ainda se surpreende.
Que ainda se cansa.
Mas que continua tentando.
Tentando educar.
Tentando aprender.
E, vez ou outra, tentando sobreviver também.
Seja bem-vindo à minha história.
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